
Empilhou as garrafas de guaraná vazias num canto da cozinha e chamou a empregada. Reclamou da desarrumação e deu novas ordens. Sentou-se para comer o que havia sobre a mesa e engoliu apressado, antes que os cogumelos crescessem no prato. A empregada começou a fazer barulho, primeiro com a vassoura, depois com os pratos que lavava na pia. Terminou de comer e voltou ao quarto. Deitou-se, levantou-se, pegou um livro na estante e recostou-se sobre os travesseiros contra a cabeceira da cama. A leitura causava-lhe sono e ele deixou o livro para não dormir. Procurou algo nas paredes e parece que não encontrou. Voltou os olhos para as mãos, que espalmou. Revistou-as demoradamente, de ambos os lados e contou os dedos de uma com os da outra. Repretiu o processo: agora, os dedos da outra contavam os de uma. Por fim levantou-se e foi até o guarda-roupa. Abriu-o e tirou de lá uma caixa de camisa. Fechou o armásio e voltou à cama com a caixa. Mas não a abriu. Ficou olhan do a estampa colorida na tampa e assumiu uma expressão aparvalhada.
A empregada terminou a arrumação da cozinha e iniciou a da sala. Os móveis empoeirados foram espanados e a seguir a vassoura arrastou os ciscos do chão. Quis fazer a limpeza do quarto mas achou melhor não incomodar, detendo a batida na porta fechada.
(Fevereiro de 1957. Carnaval. Tuquinha Batista saiu das página do livro onde fora aprisionada e caiu no samba...)
"- Teté, não me deixe!"
O homem que olhava a tampa estampada da caixa sobre a cama sobressaltou-se com a frase e procurou as pistas da voz. Onde gritaram? A imaginação, certamente. Calçou os sapatos e mesmo de pijama ainda, destampou a caixa e entrou.
A empregada resolveu que o melhor mesmo era adiantar o serviço. O dia já ia alto e quanto mais cedo terminasse mais tempo teria para o ócio. Pensou assim e bateu na porta. Bateu outra vez e mais outra e mais outra. As respostas não vieram e ela moveu o trinco e empurrou a porta devagar, olhando pela fresta enquanto ia abrindo. Espantou-se ao ver o quarto vazio, mas preferiu assim. Começou pela cama. Fechou a caixa, sem se preocupar em olhar dentro dela e levou-a para o guarda-roupa. Dobrou as cobertas, alisou o lençol, pôs-lhe em cima uma colcha e guardou o livro na estante, aleatoriamente. Varreu o chão com certa displicência e saiu do quarto, fechando a porta.
(Setembro de 1962. Primavera. Isac passeia com uma menina de 12 anos. Sente-se feliz mas quer voltar porque ameaça chover...)
"- Teté, você voltou!"
Atebaldo reconheceu a voz. Virou-se e viu a mesma moça de sempre, com o aspecto de sempre, só que desta vez ela chorava. Atebaldo correu a té ela e ela abriu-lhe os braços entre soluços. Ficaram abraçados muito tempo. Um pássaro negro, grande e veloz, voou sobre eles e sumiu ao longe. Um cavalo relinchou ali perto; o vento trouxe folhas secas de alguma árvore que não estava à vista. Atebaldo apertou mais fortemente o corpo da moça contra o seu. Ela aos poucos controlava o choro e alisava os cabelos de Atebaldo com a ponta dos dedos. FAzendo um enorme esforço de memória, Atebaldo conseguiu recordar o nome dela, e o pronunciou baixinho:
- Lelena!
[Pede-se a quem encontrar um cão "pinscher", de pelo marrom e que atende pelo nome de "Condessa" - é fêmea -, devolvê-lo ao número 73 da rua Almeida Flores, onde sua dona o aguarda aflita. Gratifica-se bem.]
A empregada entra em seu próprio quarto, fecha a porta às suas costas e a primeira coisa que faz é ligar o radinho de pilha que pegou no parapeito da janela. Tocava "sorria, meu bem, sorria..." e ela deixou continuar - "...você hoje chora por alguém que nunca lhe amou..."
Atebaldo afastou Lelena com delicadeza e lhe disse ter trazido a chave. Ela olhou no fundo dos olhos dele, tirou a roupa e lhe ofereceu o ventre. Atebaldo levou as mãos ao pescoço e puxou sobre a cabeça uma correntinha da qual pendia uma chave dourada. Introduziu-a na cavidade do abdome de Lelena, abrindo-o em par, como a uma janela. Lá dentro, foi como se se acendesse um sol. Uma luz forte ofuscou os olhos de Atebaldo quando ele retirou seu filho do Ventre de Lelena. O que lhe veio às mãos foi um ser feito de pura luz, irradiando ouro pelos poros, porque era de ouro a pele, e eram fios de ouro seus cabelos. Atebaldo o levou ao peito e beijou-o o quanto pode. A luz forte que emanava da criança não permitia ver, mas ela sorria.
Lelena fechou de novo seu ventre, trancando-o a chave, dizendo:
- Que será de mim, Teté?
(Julho de 1971. Schroeder toca seu piano sem se incomodar com Lucy, que continuamente o interrompe para dizer impertinèncias e, apaixonada, elogiá-lo...)
Aproveitando que a csa é toda silÊncio, a empregada deita-se para dormir um pouco.
(Abril de 1979. Antônia não gosta de ser comparada a uma lagartixa e manda seu namorado às favas.)
Atebaldo não se preocupa em responder a Lelena e desaparece, num clarão, com seu filho, materializando-se em seu quarto. Põe a criança sobre a cama e pega o abajur na mesa de cabeceira. Tira a lâmpada, abre-a com cuidado para não danificá-la e põe lá dentro seu filho. Recoloca a lâmpada no abajur, o abajur na mesa de cabeceira e desliga o interruptor. As luzes apagam-se sobre Teté.