sábado, 17 de outubro de 2009

"Bichinho"


Não há lua, então não sei como fazer poemas: a saudade aperta, perco-me em lembranças que recupero nas cartas que te enviam minhas mãos. Devo estar sonhando quando isto acontece, pois elas fazem tudo sem meu prévio parecer e, quando dou fé, tu ainda não me mandaste resposta.

Não há sol, embora o dia seja claro e morno, porque o inverno não tirou seu casacão de lã, o inverno não bebe chocolate quente nas casas de chá da cidade, o inverno não bebe cachaça com os mendigos nos botequins das ruas geladas; o inverno suga-nos a energia e é disso que ele vive. Chateia-nos.

Não há brisa, o que há é uma aragem que acaricia-me ora sim, ora não. Tem que ela não agita este papel o suficiente para levá-lo até aí. Qual nuvem, qual pássaro, qual borboleta pintada em camisetas de jovens nas praças.

Não há canção, o que ouço é o ruído maquinal da vida ao meu redor: apitos, buzinas, motores. As canções, não as trazem os pássaros (não há pássaros!), não as ouço no vento, não há crianças por perto. O que há são rumores da vida sem o doce mistério.

Não há luz, o tempo velou-me os olhos, não vejo tão claro assim... O que vejo são formas, são vultos, espíritos, fantasmas, espectros, talvez? São sombras? não há sol; reais? não há luz; as formas, enfim, transparecem e somem como as vagas imagens sobre as águas lodosas.

Não há vida, as máquinas e apetrechos se apossaram de tudo, comerciam a vida em longas prestações. Os homens sensatos qual loucos ficaram: não comprando a vida é possível viver? Não há sol, não há luz, não há canção, não há vida, pior que os bichos nos deixaram ficar. Não há brisa, mas o vento é tão forte e a tudo destrói. Será desolação a vida, afinal?

Não há sonho, nem quero sonhar, não qujero pensar e me vejo pensando: minha testa aprofunda uma dúvida enrugada. Quisera estar morto, entre os bichos da terra, saber como vivem os que escaparam daqui. Mas tudo quanto posso é causar-lhes tristezas, pois sei que morreram querendo viver.

Não há perdão apra minhas palavras - que elas não saiam deste papel. Não há sonho, canções, concertos na brisa, só há lentidão - a vida custa a passar. Não há, na distância, prenúncio de vida, pois tudo o que eu sinto são saudades de ti.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Mangarataia


A história muda vertiginosamente: o passado vem a minha casa para confundir o presente e reformar o futuro. Não sei quem sou, não serei quem quis ser, não sei quem fui.

A história repete-se a contragosto: num canto da sala os fantasmas do passado confabulam, apontam para mim e não se importam comigo. Sigo indeciso por caminhos que não sei.

A história tira meu sono e minha vontade de dormir. Dormir é a possibilidade de ir ao passado, de fugir do presente, de negar o futuro. Dormir é tudo que sei e preciso despertar, estar desperto e me encontrar.

A história vem me refazer pelos caminhos da poesia, por páginas de livros incertos, por caminhos que anteriormente trilhei - agora sei.

A história vem cobrar seu preço e tudo que tenho é o presente a construir e o futuro a viver...

Herói


Um herói fugiu de si mesmo. E foi, após certo tempo que permanecera escondido, procurar-se no fundo de um poço de águas claras. E viu sua imagem boiando na superfície:

Lá estou eu. Calmo e sereno. Busquei-me e encontrei-me. Cá, não tenho o mundo exterior a perseguir-me. Estou calmo e só. Encon trei-me. Nas águas deste poço sei quem sou. E não tenho medo de dizê-lo. Sou apenas reflexo. Nada mais. Reflexo que eu não via em poços de águas turvas. Encontrei-me. Neste poço, meu reflexo é minha alma.

domingo, 13 de setembro de 2009

Fiat lux


Empilhou as garrafas de guaraná vazias num canto da cozinha e chamou a empregada. Reclamou da desarrumação e deu novas ordens. Sentou-se para comer o que havia sobre a mesa e engoliu apressado, antes que os cogumelos crescessem no prato. A empregada começou a fazer barulho, primeiro com a vassoura, depois com os pratos que lavava na pia. Terminou de comer e voltou ao quarto. Deitou-se, levantou-se, pegou um livro na estante e recostou-se sobre os travesseiros contra a cabeceira da cama. A leitura causava-lhe sono e ele deixou o livro para não dormir. Procurou algo nas paredes e parece que não encontrou. Voltou os olhos para as mãos, que espalmou. Revistou-as demoradamente, de ambos os lados e contou os dedos de uma com os da outra. Repretiu o processo: agora, os dedos da outra contavam os de uma. Por fim levantou-se e foi até o guarda-roupa. Abriu-o e tirou de lá uma caixa de camisa. Fechou o armásio e voltou à cama com a caixa. Mas não a abriu. Ficou olhan do a estampa colorida na tampa e assumiu uma expressão aparvalhada.

A empregada terminou a arrumação da cozinha e iniciou a da sala. Os móveis empoeirados foram espanados e a seguir a vassoura arrastou os ciscos do chão. Quis fazer a limpeza do quarto mas achou melhor não incomodar, detendo a batida na porta fechada.

(Fevereiro de 1957. Carnaval. Tuquinha Batista saiu das página do livro onde fora aprisionada e caiu no samba...)

"- Teté, não me deixe!"

O homem que olhava a tampa estampada da caixa sobre a cama sobressaltou-se com a frase e procurou as pistas da voz. Onde gritaram? A imaginação, certamente. Calçou os sapatos e mesmo de pijama ainda, destampou a caixa e entrou.

A empregada resolveu que o melhor mesmo era adiantar o serviço. O dia já ia alto e quanto mais cedo terminasse mais tempo teria para o ócio. Pensou assim e bateu na porta. Bateu outra vez e mais outra e mais outra. As respostas não vieram e ela moveu o trinco e empurrou a porta devagar, olhando pela fresta enquanto ia abrindo. Espantou-se ao ver o quarto vazio, mas preferiu assim. Começou pela cama. Fechou a caixa, sem se preocupar em olhar dentro dela e levou-a para o guarda-roupa. Dobrou as cobertas, alisou o lençol, pôs-lhe em cima uma colcha e guardou o livro na estante, aleatoriamente. Varreu o chão com certa displicência e saiu do quarto, fechando a porta.

(Setembro de 1962. Primavera. Isac passeia com uma menina de 12 anos. Sente-se feliz mas quer voltar porque ameaça chover...)

"- Teté, você voltou!"

Atebaldo reconheceu a voz. Virou-se e viu a mesma moça de sempre, com o aspecto de sempre, só que desta vez ela chorava. Atebaldo correu a té ela e ela abriu-lhe os braços entre soluços. Ficaram abraçados muito tempo. Um pássaro negro, grande e veloz, voou sobre eles e sumiu ao longe. Um cavalo relinchou ali perto; o vento trouxe folhas secas de alguma árvore que não estava à vista. Atebaldo apertou mais fortemente o corpo da moça contra o seu. Ela aos poucos controlava o choro e alisava os cabelos de Atebaldo com a ponta dos dedos. FAzendo um enorme esforço de memória, Atebaldo conseguiu recordar o nome dela, e o pronunciou baixinho:

- Lelena!

[Pede-se a quem encontrar um cão "pinscher", de pelo marrom e que atende pelo nome de "Condessa" - é fêmea -, devolvê-lo ao número 73 da rua Almeida Flores, onde sua dona o aguarda aflita. Gratifica-se bem.]

A empregada entra em seu próprio quarto, fecha a porta às suas costas e a primeira coisa que faz é ligar o radinho de pilha que pegou no parapeito da janela. Tocava "sorria, meu bem, sorria..." e ela deixou continuar - "...você hoje chora por alguém que nunca lhe amou..."

Atebaldo afastou Lelena com delicadeza e lhe disse ter trazido a chave. Ela olhou no fundo dos olhos dele, tirou a roupa e lhe ofereceu o ventre. Atebaldo levou as mãos ao pescoço e puxou sobre a cabeça uma correntinha da qual pendia uma chave dourada. Introduziu-a na cavidade do abdome de Lelena, abrindo-o em par, como a uma janela. Lá dentro, foi como se se acendesse um sol. Uma luz forte ofuscou os olhos de Atebaldo quando ele retirou seu filho do Ventre de Lelena. O que lhe veio às mãos foi um ser feito de pura luz, irradiando ouro pelos poros, porque era de ouro a pele, e eram fios de ouro seus cabelos. Atebaldo o levou ao peito e beijou-o o quanto pode. A luz forte que emanava da criança não permitia ver, mas ela sorria.

Lelena fechou de novo seu ventre, trancando-o a chave, dizendo:

- Que será de mim, Teté?

(Julho de 1971. Schroeder toca seu piano sem se incomodar com Lucy, que continuamente o interrompe para dizer impertinèncias e, apaixonada, elogiá-lo...)

Aproveitando que a csa é toda silÊncio, a empregada deita-se para dormir um pouco.

(Abril de 1979. Antônia não gosta de ser comparada a uma lagartixa e manda seu namorado às favas.)

Atebaldo não se preocupa em responder a Lelena e desaparece, num clarão, com seu filho, materializando-se em seu quarto. Põe a criança sobre a cama e pega o abajur na mesa de cabeceira. Tira a lâmpada, abre-a com cuidado para não danificá-la e põe lá dentro seu filho. Recoloca a lâmpada no abajur, o abajur na mesa de cabeceira e desliga o interruptor. As luzes apagam-se sobre Teté.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Canção do vento


A profunda alegria do vento não me contagiava: eu estava triste.

O vento fremia nas árvores que se agitavam num tremor de folhas e galhos.

O vento bramia nos troncos ocos e cantava lúgubre canção que a natureza regia.

O vento tremia as folhinhas da relva, trazia um cheiro no ar, convidando a todos para um longo passeio.

Mas não me contagiava: eu estava triste.

Eu estava triste e era bom ficar assim comigo mesmo; era bom estar melancólico quando a natureza brincava à minha volta.

Porque eu compre endia, a natureza compreendia minha tristeza e me chamava ao canto, à comunhão com ela. Mas não me contagiava: era bom eu ficar triste, muito bom.

domingo, 6 de setembro de 2009

A boa ideia de Antonico


Um sapo que se chamava Antonico fez xixi no penico de barro que era da mãe dele. Dona Sapa Coaxilda, mãe de Antonico, deixou de lado esse pequeno problema e partiu pra cima do marido, Dr. Carlos Sapo Coaxão, querendo tirar satisfações apressadas, porque o Dr. Sapo chegou tarde em casa.

A discussão foi feia. Xingaram-se os dois, a mãe e o pai de cada um, enquanto Antonico assistia televisão no quarto.

Dr. Sapo quis pedir desquite, argumentou, pensou em cosntituir advogado, mas Dona Sapa jogou um vaso com flores na cabeça dele. Dr. Sapo desmaiou.

Aí você imagina o resto: Dona Sapa chorou, pensando que tinha matado o marido, e saiu gritando coisas como "o que é que eu fui fazer?", "ai, meu Deus, e agora?", "O que é que eu faço?".

- Joga água nele - disse Antonico, que veio pra sala quando, ouviu o barulho do vaso quebrando. - Joga água nele, mãe!

Dona Sapa fez que sim com a cabeça e picou outro vaso com flores na cabeça do Dr. Sapo, matando-o pra valer!

Parábola da Loucura


Um dia, quando minha Loucura me chamou para um passeio, eu coloquei minha malha preta e todos me confundiram com um corvo.

Jogaram-me pedras os meninos, xingaram-me os rapazes, zombaram de mim os homens. As mulheres fugiam de mim, com medo.

Então fui ter com os velhos eremitas e eles me deram parte de sua ração e eu a comi com gosto.

Depois que parti, os velhos lavaram a tigela onde comi e varreram e limparam o lugar onde sentei.

Depois disso, nunca mais passeei com minha Loucura...